Tenho um dragão que mora comigo.
Não, isso não é verdade.
Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir o seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal como eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devem ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu fiquei, sozinho neste apartamento, depois da sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que o meu isolamento tinha acabado para sempre. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da sua ausência, felizmente cada vez menos frequentes (a aridez não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não se afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.
Caio Fernando Abreu, Os dragões não conhecem o paraíso
