Trecho:
Duas da manhã, volto para o apartamento velho. Ver se ele está dormindo, se está coberto. Estava acordado, lendo Eça, como se nada estivesse acontecendo. Como se fosse a coisa mais normal do mundo um pai, depois de crescidinho, sair de casa, ir tentar a vida-solo.
- Você fica com a Folha e eu com o Estadão. Você fica com a Isto É, eu com a Veja. Você fica com a Net e eu com a TVA. Você fica com a Uol e eu com a Mandic. Você fica com o 486, eu com o Pentium. Você fica com o amor e eu com a saudade. Posso levar o papel higiênico? E o cortador de unhas? Aquele bom.
São cinco da manhã e a gente ainda está ali, na sala, dividindo as nossas vidas. Ele me deseja sorte, faz recomendações. Levou o Lexotan?
Cuidado com a gastrite.
Combino de ir ao jogo, logo mais, com ele. Você fica com o Corinthians, que eu fico com o meu mineiro Cruzeiro.
- E, por falar em cruzeiro, você tem aí uns reais?
É duro cara, cair na real, separar e mudar. Principalmente quando a gente ama, e como ama, a pessoa separada.
4 de junho de 2010
